terça-feira, 21 de setembro de 2010

Calor Seca e Queimadas



Já tivemos períodos de secas mais prolongadas. Há um registro, citado por Ricardo Noblat, de que em 1963 Brasília ficou 163 dias sem chover. Em 2007 foram 123 dias sem chuva. Neste ano, em 20 de setembro, completamos 116 dias sem chuva. É muito tempo, especialmente se considerarmos que no ano de 2009 tivemos chuva em todos os meses do ano.

Alem de não chover, as temperaturas tem andado muito altas. Em todo o mundo ocorreram incêndios de grande porte e problemas de saúde decorrentes de altas temperaturas. O responsável pelo Blog “Ciência em Dia”, Marcelo Leite, em artigo postado em 15 de setembro discute o aquecimento global e comenta sobre a possibilidade de 2010 vir a ser o ano mais quente da historia.


O calor sem dúvida é o grande responsável pelo fogo que atinge os parques e reservas. Nas áreas de cerrado o risco é maior. O fogo que consome a Capada dos Veadeiros é atribuído a mãos criminosas, mas nem sempre é assim.

O cerrado tem a predisposição para a ocorrência de incêndios por causas naturais. Os animais e plantas em decomposição liberam o gás fosfina, hidreto de fósforo. Este gás em contato com a atmosfera entra em combustão. Estando tudo seco, qualquer faísca inicia um incêndio.


Resta estar a postos e ter capacidade de reação rápida para evitar que o fogo se alastre. Os ventos, comuns neste período do ano, contribuem para o rápido avanço do fogo sobre o material ressequido e, a partir, daí o controle do incêndio é quase impossível.

A baixa umidade enfrentada este ano é muito severa. Causa um cansaço insuperável, ardência nos olhos, irritação na garganta, nariz ressecado, pele seca e dor de cabeça. Neste ano os sintomas estão mais acentuados. A umidade relativa do ar, medida no

Aeroporto de Brasília, conforme mostra o gráfico acima, no período compreendido entre os dias 1º e 15 de setembro registra 10 dias abaixo do índice de 12% de umidade relativa do ar, nível considerado crítico pela Organização Mundial de Saúde. No dia 15 o índice chegou a 5%. Esses índices baixos de umidade já vinham ocorrendo desde o mês de julho, no dia 22 chegou a 7%, índice repetido no dia 24 de agosto.

Sabemos que o aquecimento global é responsabilidade de todos. Otimizar os transportes e todas as atividades emissoras de partículas na atmosfera e reduzir a geração de calor com as maquinas a combustão é obrigação de todos. A reversão do aquecimento global levará muitos anos. Até lá teremos que buscar as medidas capazes de reduzir os efeitos desse aquecimento sobre o meio ambiente e sobre todos os seres vivos.
Fotos de Evando F. Lopes


 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mendicância no DF

Movimento Nacional de População de Rua no Palácio do Planalto
Foto de Fellipe Bryan

Quem circula pelas ruas de Brasília sente a presença marcante daqueles que vivem da esmola. A cada semáforo, calçadas de grande circulação, lá estão eles a espera da caridade de quem passa. Há aqueles que ficam às portas das farmácias com uma receita à mão e aqueles que vão aos restaurantes, no horário de almoço, pedir algum trocado para completar a quentinha.

Os que ficam nos semáforos, são quase sempre os mesmos. Em geral, há apenas um em cada semáforo. Ficam conhecidos por aqueles que repetem o caminho nos trajetos para casa, para o trabalho ou para a escola. Alguns são muito magros, fruto da falta de alimentos ou em decorrência de alguma disfunção orgânica. Nestes casos eles fazem questão de se apresentarem sem camisa de modo a acentuar sua incapacidade para o trabalho.

Um deles mendiga desde criança pequena. Hoje é homem feito e continua a mendigar no centro da cidade. Suas feições repassam um certo alheamento em relação ao meio, seus pés se movem arrastados, sua indumentária denota que ainda não amadureceu. Ele pode ser visto bem cedo ao sol nascente, à tarde ou à noite.

                                               
                                                                                                    Foto Leroy Skalstad
Há quem se apresente limpo, só ou com a familia. Pedem junto aos restaurantes. Eles mantém um semblante de comiseração e dor. Pedem por comida; no dia seguinte estarão ali, nos mesmos locais, a abordar as mesmas pessoas.

Até um tempo atrás era comum aparecerem perto das paradas de ônibus e até nos shoppings pedindo dinheiro para completar “uma passagem”. Passagem para a uma cidade satélite ou para alguma cidade vizinha. Apresentam-se com a família toda para dar veracidade ao pedido ou pressionar as pessoas abordadas. Dias atrás uma pessoa me abordou pedindo dinheiro para botar gasolina no carro que estava abandonado na pista. Nunca tinha acontecido tal coisa comigo.

Conhecendo os mendigos que atuam no centro da cidade, fiquei impressionado, dias atrás, com o aumento inusitado do número de pedintes. Apareceram do nada. Muitos vestindo roupas limpas e de qualidade. Alguém especulou que seriam as pessoas que vivenciavam a Rodoferroviaria, e que, ao perderem seu palco de atuação, migraram para o centro da cidade. Os ônibus interestaduais foram transferidos da Rodoferroviaria para as imediações do Park shopping. Um deles     causou espanto ao se ajoelhar diante do motorista para pedir ajuda. O motorista ficou mais espantado que sensibilizado e deixou de dar a esmola.

Aparecem muitos no final do ano para explorar a benignidade das pessoas que aflora com o período natalino. Postam-se em condições subumanas ao logo das vias, abrigam-se em diminutas barracas de lona preta, à espera da classe media alta que por ali transita.

Durante algum tempo o Governo do Distrito Federal nos levou a crer que haveria uma política de integração destas pessoas e que, portanto não deveríamos dar esmolas. Os governantes mudaram e aquela política foi esquecida.



O Governo do Distrito Federal, no PROSPECI-DF Programa de Segurança Pública e Cidadania do Distrito Federal, tem uma proposta de “construção de um albergue para acolhimento noturno para pessoas que moram nas ruas (local próximo ao plano piloto)”. Sabe-se que nem todos os mendigos são moradores de rua e que não há mendigos e moradores de rua apenas no Plano Piloto.


Foto Edison Russo

Em entrevista ao Correio Brasiliense em 13 de Setembro de 2010, O coordenador do Movimento Nacional de População de Rua, Joel Porto Lima, disse que os albergues hoje "têm apenas uma porta de entrada". "Mas falta a saída, criar mecanismos, ações para que os moradores consigam reconstruir suas vidas".

Há um entendimento entre os especialistas de que estas pessoas estão na rua por exclusão: expulsão, desenraizamento e privação. Dito de outra forma, eles foram para a rua por perda da moradia, inexistência de trabalho e renda, mudanças econômicas e institucionais de forte impacto social e por fatores biográficos: alcoolismo, drogas, rompimentos dos vínculos familiares, doenças mentais, perda de todos os bens etc.

Para cada motivo deve ser ofertada uma solução diferente que permita a convivência daquela pessoal com a cidade. São estas medidas que podem oferecer os meios para que aquelas pessoas reconstruam suas vidas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Boca de Lobo, Roçagem e Poda



Ouvi um barulho conhecido. Não pude identificá-lo. Soava fora de contexto. Fui à janela e vi uma roçadeira mecanizada a levantar poeira. Ela passava de um lado para o outro a procurar um raminho mais alto, que atingisse a altura de sua lâmina, mas não encontrou nada, nem uma graminha mais alta, tudo estava e continua esturricado, queimado pelo sol e pela secura do ar de Brasília.


Vi no Setor Indústria e Abastecimento - SIA, também, um homem com uma daquelas roçadeiras portáteis, que têm uma cinta para apoiar no ombro, que funcionam a gasolina. Aquele homem também procurava, inutilmente, algo para cortar com seu fio rotativo. Ali, como na Superquadra, toda a vegetação estava quase preta de tão queimada.

Li uma noticia dando conta de que a Novacap estava promovendo, no SIA, a Operação Cidade Limpa. Essa operação tem por objetivo, segundo a publicação, serviços como roçagem, poda de árvores, limpeza de valas, desobstrução de bocas-de-lobo, pintura de meios-fios, entre outros. A operação deslocou 250 homens para tal tarefa.

Pelo que pude notar, essa mesma Operação havia sido empreendida em Taguatinga, no mês de junho, a propósito do aniversário daquela cidade. Trata-se de uma intervenção de recuperação sob vários aspectos. Lâmpadas danificadas, buracos nas ruas, meios-fios danificados e outros são reparados.

Era de se esperar que tais recuperações não fossem caracterizadas como “obras”, eventos de bondade da administração pública que ocorrem quando o local é sorteado. Esses serviços, como tapa-buraco na via, devem ser feitos imediatamente após a sua ocorrência, pois a permanência do buraco pode provocar acidente, danos materiais e desconforto aos usuários das vias.

A operação de limpeza com desobstrução das bocas-de-lobo deveria ocorrer em todo o Distrito Federal antes das primeiras chuvas. Dentro de, mais tardar, um mês choverá e as galerias que não forem limpas poderão ter suas tubulações obstruídas. Deve-se limpar não apenas as bocas-de-lobo, mas também as galerias de águas pluviais, pois estas são contínuas às bocas-de-lobo e quase sempre ficam obstruídas com parte do lixo carreado para elas.

Nas podas de árvores promovidas pela Novacap estão mutilando o patrimônio tão importante para a nossa cidade. É recomendável a poda em alguma situações: quando o galho ou mesmo a árvore como um todo põe em risco as pessoas ou bens; quando o galho interfere com a circulação de pessoas ou veículos; quando parte da árvore está doente, seca, e pode vir a cair. Fora estes casos não é recomendável a poda.

Já não há o que podar nas nossas árvores. É quase impossível encontrar uma árvore que não tenha perdido parte de sua copa. Ao perder parte da copa ela reduz a sua capacidade de absorver o calor solar e transformar aquele calor em folhas e lenho. Esse processo é que melhora o conforto térmico onde há grande presença de vegetação. As árvores têm perdido as suas formas decorrentes de suas variedades. Estão ficando todas com um único aspecto: um tronco retorcido que se estica em direção ao céu, todo marcado pelas cicatrizes deixadas pelo corte dos galhos e uma copa pequena no topo.

Essa Operação Cidade Limpa, com todo esse contingente faria bem à cidade se deixassem em paz as árvores e os pássaros que nelas habitam. Não há segurança de que naqueles galhos mais altos ou em qualquer outro haja verificação da existência de ninhos de pássaros. Eles cortam de baixo, utilizando ferramentas longas que dispensam subir nas árvores.

Também seria melhor não tentar cortar a grama neste momento. Não há o que roçar. Melhor encaminhar esse pessoal da roçagem e da poda das árvores para a limpeza das bocas-de-lobo, pois se alguma permanecer entupida isso provocará inundação.

Tem-se a impressão de que há um contrato de poda e outro de roçagem e que as empresas terceirizadas saem às ruas para apresentarem serviço e receberem as faturas correspondentes. Não encontro outra explicação plausível para tal comportamento absurdo.